A Seleção Brasileira de Futebol Americano enfrentou o Chile, no dia 21 de Janeiro em Foz do Iguaçu (PR). A partida foi muito importante, já que marcou o retorno da seleção ao esporte (o Brasil não atuava nesse esporte desde 2007).
O retorno foi em grande estilo: vencemos o Chile por 33 x 0.
Além da vitória, essa partida rendeu ao Brasil a posição de time do mês de Janeiro pela IFAF (International Federation of American Football).
Tarcísio Lakatos, jogador da linha ofensiva do Spartans desde os primeiros passos do time, foi convocado para essa partida. Nessa entrevista ele fala para Adriana Mapet, jornalista do Spartans, sobre a experiência na Seleção Brasileira e sobre o crescimento do Futebol Americano em geral.
Adriana Mapet: Como foi a experiência de representar o Brasil no FA?
Tarcisio Lakatos: Creio que foi um dos momentos mais gratificantes desde que iniciei a prática do FA, há 5 anos. Entrar no campo é sempre emocionante, fazer isso sabendo que se está representando o Brasil em um esporte que até pouco tempo atrás era praticamente desconhecido por aqui, e que hoje tem fãs e torcida crescendo cada vez mais ao ponto de, no amistoso, termos mais de duas mil pessoas assistindo e vibrando foi um ponto alto na minha experiência como jogador.
A.M: Você foi o único jogador do Spartans convocado para o amistoso contra o Chile. O que você traz dessa experiência para seus companheiros de equipe?
T.L: Sobretudo, experiência. Creio que, afora isso, o Spartans me ensina mais coisas do que eu ensino a eles.
A.M: Quatro atletas com experiência internacional se juntaram ao grupo. Foi possível uma troca de experiências com eles? (São eles: Guilherme Moreira – Malone University, Heron Azevedo – Diablo Valley College, Maikon Bonani – University of South Florida, Raiam Santos – Penn University).
T.L: Infelizmente menor do que eu gostaria, a seleção só pode treinar junta três vezes, devido a diversos fatores, o que não é tempo suficiente para termos tanto convívio.
A.M: O que significou para você, que estava presente, o fato de a Seleção Brasileira ter sido considerada o time do mês de Janeiro pela IFAF (Federação Internacional de Futebol Americano)?
T.L: Acho que isso nos serve como mais um incentivo, o esporte evoluiu muito e ter o reconhecimento da IFAF é uma prova do quanto conquistamos nestes anos.
A.M: O FA evoluiu muito no Brasil, em poucos anos. Você vê esse crescimento como um potencial de nos tornarmos referência também nesse esporte?
T.L: Creio que o Brasil tem tanta capacidade quanto o Japão, a Suécia ou o México de se desenvolver neste esporte. Mas pra isso é necessário o apoio de patrocinadores, dos governos e da própria mídia, que precisa enxergar além do estereótipo de um esporte estritamente americano, jogado por brutamontes, e enxergar a beleza e complexidade que tornam o futebol americano um jogo único.
A.M: Em janeiro a FPFA (Federação Paranaense de Futebol Americano) anunciou uma parceria com a SMELJ (Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Juventude de Curitiba), para a criação de um Centro de Referência do Futebol Americano na capital Paranaense. Como você vê essa iniciativa? Você acredita que isso pode incentivar o governo do estado e a prefeitura de São Paulo a investir mais nesse esporte?
T.L: É um ótimo começo, com certeza. Com esse passo o futebol americano paranaense passa um pouco à frente do restante do país. Não sei dizer se outros estados, incluindo São Paulo, seguirão este exemplo. Todos sabemos que interesses políticos, que vão além do bem estar, permeiam as decisões dos governos. Quanto a cidade de São Paulo, faz alguns anos que diversas pessoas tentam conseguir mais espaço para o futebol americano, porém até hoje a prefeitura fez ouvidos moucos aos pedidos… Quem sabe podemos ver mudanças agora que o esporte tem ganhado espaço.
A.M: Quais as maiores dificuldades para praticar o FA hoje no Brasil?
T.L: O futebol americano é um esporte que demanda dedicação, mas que também necessita de um certo apoio financeiro, para a compra de equipamentos, manutenção de um campo de treino, compra/fabricação de equipamentos usados na preparação do jogadores. Muitos dos jogadores, por mais vontade que possuam, se vem obrigados a treinar menos do que gostariam por falta de alguns destes quesitos. Já conheci jogadores que não podiam sequer pagar uma academia para realizarem os condicionamentos necessários fora do campo. Portanto creio que o maior problema hoje é o apoio, seja através de patrocínios, incentivo dos governos ou qualquer outro meio. O esporte vem se difundindo naturalmente então creio que problemas antigos como falta de entendimento das regras ou o próprio desconhecimento da existência do esporte fora dos Estados Unidos tendem a desaparecer com o crescimento do esporte.
A.M: O Spartans comemorou 5 anos no dia 13 de fevereiro. Como você vê a evolução da equipe e do Futebol Americano ao longo desses anos?
T.L: Essa é uma pergunta difícil de responder, como um dos primeiros membros do time é impossível não me orgulhar ao pensar no nosso passado, dos primeiros treinos, onde ninguém tinha nenhum conhecimento real do jogo… E a nossa evolução desde esse momento, quando decidimos que precisávamos aprender mais para chegarmos a algum lugar. Hoje eu me sinto em parte realizado, pois creio que alcançamos muito, mais do que alguns poderiam sonhar quando nos juntamos 5 anos atrás. Mas a minha natureza de espartano me faz querer mais, se hoje conseguimos ser bons, quero que sejamos grandes. Acho que o Spartans tem condição de sobra para isso.
A.M: Você é o coordenador da Linha Ofensiva do Spartans. Como é treinar, e mais que isso, ensinar essa função aos jovens que chegam no Spartans?
T.L: Na verdade eu coordeno tanto a linha ofensiva quanto a linha defensiva. Creio que a maior dificuldade é retirar da cabeça de muitos dos que chegam ao time que basta ser um cara pesado ou grande que você vai se dar bem nas trincheiras. Sempre brinco que a linha ofensiva é a posição que mais se assemelha a de um goleiro no futebol, pois só se lembram de nós quando erramos! Faço sempre questão de deixar bem claro que para ser um jogador da linha é mais importante inteligência, força de vontade e força física, sobretudo combinada a garra e vontade de vencer, do que peso ou altura. Eu mesmo sou baixo para os padrões normais e creio que me saí razoavelmente bem até hoje.
A.M: O Campeonato Paulista está pra começar, qual a sua expectativa pra esse ano?
T.L: A minha expectativa para o campeonato é a mesma que tenho para os treinos, amistosos ou jogos: entrar, dar tudo de mim e ter certeza de travar o bom combate, ganhando ou perdendo.
A.M: A equipe feminina do Spartans está na disputa pelo título Paulista de Flag, que será disputado no dia 26, Domingo. Como você vê o crescimento desse esporte entre as meninas e o que você espera das Espartanas nessa final?
T.L: O futebol americano feminino teve uma explosão de praticantes, o que considero mais um sinal de que um dia o esporte será um gosto nacional. Quanto às espartanas, acredito que elas mais que já provaram seu valor, e espero que este jogo venha coroar a bela atuação que o time teve no campeonato até agora.